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Clínica Cirúrgica do Norte Porto

Medicina Dentária Especializada

Magnésio nos suplementos: como ler rótulos e dosagens

A paciente estende-me a caixa do suplemento que comprou por recomendação de uma amiga. "Doutora, diz aqui que tem 500 miligramas de magnésio, mas a amiga toma 1000 e diz-me que é o dobro.

Magnésio nos suplementos: como ler rótulos e dosagens

Não sei se estou a tomar o que devo."

Esta pergunta surge-me quase todas as semanas no consultório. O magnésio ocupa um lugar peculiar entre os suplementos de venda livre: toda a gente já ouviu falar dele, muitos já estão a tomar, e poucos sabem realmente o que está escrito no rótulo. Como médica dentista dedicada à reabilitação oral, esta confusão interessa-me directamente porque o mineral é um dos que tem impacto mais sólido na arquitectura óssea, na resposta periodontal e na modulação neuromuscular que me chega à cadeira sob a forma de bruxismo ou de disfunções da articulação temporomandibular.

Vou explicar, nas próximas secções, o que sabemos da evidência, como se lê um rótulo sem cair em armadilhas, quais os limites de segurança definidos pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) e como integrar tudo isto num plano coerente com a situação clínica de cada doente — sem promessas de cura milagrosa e sem confundir o suplemento com o tratamento que efectivamente é preciso.

O magnésio como pilar invisível da estrutura oral

Convém começar pelo básico para perceber o resto. Cerca de 60% do magnésio total armazenado no organismo humano encontra-se nos ossos e dentes, onde desempenha uma função estabilizadora da matriz mineralizada e participa activamente na formação e remodelação óssea. Por outras palavras, é um dos componentes que torna o osso alveolar — aquele que segura os dentes — mecanicamente competente, ao lado do cálcio e do fósforo.

Ao nível gengival, o magnésio actua como modulador da resposta inflamatória. Revisões sistemáticas e estudos observacionais, entre os quais os dados publicados na análise do NHANES, mostram que ingestões adequadas de magnésio se associam a menor prevalência de periodontite, menor profundidade de bolsas periodontais e menor perda de inserção clínica. Na prática, isto significa que o doente com periodontite crónica que mantém níveis séricos e dietéticos suficientes do mineral tende a apresentar marcadores inflamatórios gengivais mais favoráveis.

O magnésio não é um "remédio para as gengivas" — é um cofactor metabólico que, em conjunto com a higiene, a destartarização e o acompanhamento profissional, ajuda o periodonto a defender-se melhor.

Vale a pena trazer um número concreto para contextualizar. No estudo NHANES, a razão de chances (OR) de periodontite na quinta parte da população com maior ingestão de magnésio foi de 0,69, com intervalo de confiança a 95% entre 0,52 e 0,92. Traduzindo sem perder o rigor: quem ingere mais magnésio tende, estatisticamente, a apresentar menos periodontite. Importa sublinhar que se trata de associação e não de causalidade isolada, e que estes achados não substituem uma destartarização ou um alisamento radicular sempre que esses procedimentos estiverem clinicamente indicados.

O rácio magnésio/cálcio surge, aliás, com cada vez mais frequência na literatura periodontal. Uma dieta em que o cálcio domina de forma esmagadora, sem a contrapartida do magnésio, pode condicionar a forma como o mineral é depositado no osso e como a musculatura responde à carga mastigatória. Esta é uma das razões pelas quais, quando falo com doentes que estão a tomar apenas suplementos de cálcio por conselho de vizinho ou de conteúdo partilhado em redes sociais, recomendo quase sempre reavaliar a equação com o médico assistente.

A armadilha do rótulo: sal versus magnésio elemental

Quando a paciente me mostra a caixa com a indicação "500 mg de dimalato de magnésio", o primeiro esclarecimento é quase sempre o mesmo: esses 500 mg referem-se ao peso total do composto (o sal), não ao magnésio propriamente dito. Para saber quanto mineral está realmente a tomar, é preciso procurar a linha "magnésio elemental" — ou, na sua ausência, fazer a conta.

Na prática, cada sal de magnésio tem uma proporção diferente de mineral aproveitável pelo organismo. O bisglicinato, o dimalato, o citrato, o taurato e o óxido têm rácios próprios. A tabela abaixo reúne os valores aproximados que costumo ter à mão na consulta para conversar com o doente. Os números são aproximações úteis para a leitura do rótulo, não para fins regulamentares, e cada rótulo deve ser confirmado individualmente.

Sal de magnésioMagnésio elemental aproximado por grama do salLeitura prática
Bisglicinato~140 mgForma quelada, em geral melhor tolerada a nível gastrointestinal
Dimalato~150 mgPor vezes preferido em contextos de fadiga muscular
Citrato~160 mgBoa biodisponibilidade oral, sabor mais ácido
Taurato~90 mgMenor densidade de mineral por grama
Óxido de magnésio~600 mgElevada concentração no sal, mas biodisponibilidade tendencialmente mais baixa

O cálculo é simples: multiplica-se o peso total do sal pela percentagem de magnésio elemental que o rótulo indica (ou pela tabela acima, se o rótulo omitir). Um suplemento com 500 mg de dimalato fornece, na melhor das hipóteses, cerca de 75 mg de magnésio elemental, não 500. É por isso que comparações do tipo "eu tomo 1000 e tu tomas 500" raramente fazem sentido sem esta desambiguação prévia.

Há uma segunda armadilha que costumo ver nas consultas: confundir esta dose com o Valor de Referência do Nutriente (VRN) usado na rotulagem europeia, fixado em 375 mg por dia no Regulamento (UE) n.º 1169/2011. Este valor é referência para a rotulagem e não uma dose terapêutica nem um limite superior. Misturá-lo com a dose do composto é um dos erros mais frequentes que encontro, em especial em doentes que vão à farmácia com a indicação do dia e confiam no que está na frente da caixa.

Os limites da EFSA: quanto se pode tomar sem sobredosagem

Ainda que o magnésio seja um mineral relativamente bem tolerado, existe um tecto de segurança definido pela EFSA: o Limite Máximo Tolerável (UL) para o magnésio proveniente exclusivamente de suplementos alimentares é de 250 mg por dia em adultos. Este limite existe porque doses superiores associam-se, com frequência clinicamente relevante, a efeitos gastrointestinais — diarreia, desconforto abdominal, cólicas — e porque, em doentes com compromisso renal, a capacidade de excreção está diminuída e o risco de hipermagnesemia sobe.

Vale a pena separar três números que se misturam com facilidade no rótulo e nas conversas:

  • Ingestão Adequada (IA) total de magnésio — 350 mg/dia para homens adultos e 300 mg/dia para mulheres adultas, segundo a EFSA; inclui toda a origem (alimentos e suplementos).
  • Valor de Referência do Nutriente (VRN) — 375 mg/dia para adultos, definido no Regulamento (UE) n.º 1169/2011 com finalidade de rotulagem.
  • Limite Máximo Tolerável (UL) de suplementos — 250 mg/dia, fixado pela EFSA especificamente para a parcela de magnésio que vem de suplementos, de modo a evitar efeitos adversos em indivíduos saudáveis.

Para o doente que já está a tomar um multivitamínico e mantém uma dieta mediterrânica razoável, é frequente atingir a IA apenas com a alimentação. É por isso que, antes de recomendar qualquer suplemento isolado, procuro saber o que está já a ser tomado — para não empilhar dois produtos cujas doses somam mais do que o tecto prudente.

Há ainda um ponto que nunca me canso de sublinhar: o UL aplica-se ao magnésio elemental que vem de suplementos. Quem toma, por exemplo, um multivitamínico com 100 mg de magnésio elemental e, em paralelo, um suplemento isolado com mais 200 mg está a tocar no tecto. Ultrapassá-lo sem indicação clínica não traz benefício acrescido e pode ser muito desconfortável, sobretudo em indivíduos com trânsito intestinal já de si sensível ou com tendência a queixas funcionais do foro gastrointestinal.

Mais suplemento não significa melhor suplemento — é, com frequência, o caminho mais curto para a diarreia e para um rim que vai ter de trabalhar a sério para excretar o excesso.

Em doentes com insuficiência renal diagnosticada, a regra muda substancialmente. A capacidade de excretar magnésio diminuiu, e mesmo doses que parecem modestas para a população geral podem acumular-se e provocar letargia, hipotensão, alterações do ritmo cardíaco e desconforto neuromuscular. Nestes casos, a suplementação — quando há mesmo indicação clínica para ela — é sempre articulada com a nefrologia ou com o médico assistente, e raramente é iniciada pelo dentista.

Magnésio, bruxismo e disfunção temporomandibular: a via neuromuscular

A relação entre o mineral e a função muscular é uma das áreas em que sou chamada à conversa com mais frequência. Muitos doentes com bruxismo do sono, ou com desgaste dentário sugestivo de apertamento, perguntam-me se "não será falta de magnésio". A resposta que dou, com honestidade, é: pode ser um factor contribuinte; não é, contudo, a causa única; e nunca substitui o plano clínico integrado.

Do ponto de vista fisiológico, o magnésio actua como bloqueador fisiológico dos receptores NMDA, modulando a entrada de cálcio nas células musculares e ajudando a regular o tónus neuromuscular. Traduzindo de forma acessível: quando há pouco magnésio disponível, esta "válvula" funciona pior, e a musculatura mastigatória — masseter, temporal, pterigóideos — tende a permanecer num estado de excitabilidade ligeiramente superior. Revisões recentes, incluindo publicações de 2024 sobre os níveis séricos de magnésio em doentes com DTM e revisões de 2025 sobre intervenções nutricionais no bruxismo do sono, apontam nesta direcção sem, todavia, estabelecerem uma dose suplementar definitiva com efeito curativo.

O que isto significa, em concreto, para o doente que tenho à frente: a suplementação com magnésio pode fazer parte de uma estratégia multimodal que inclui placa oclusal noturna, gestão de stress, higiene do sono e, sempre que necessário, fisioterapia da articulação temporomandibular. Isolada, dificilmente resolverá um bruxismo severo ou uma DTM com deslocamento do disco. Combinada, pode ajudar a baixar o tónus nocturno e a reduzir a percepção de tensão matinal, sem nunca substituir a avaliação clínica que identifica a causa principal.

Uma conversa-tipo na minha cadeira costuma seguir este guião: confirmo a ingestão dietética, avalio a medicação crónica (alguns diuréticos e inibidores da bomba de protões podem reduzir os níveis séricos de magnésio a longo prazo), pondero uma suplementação oral moderada, e articulo com o médico assistente o passo seguinte quando há doença renal, cardíaca ou polimedicação. Em nenhum cenário defendo doses suplementares superiores a 250 mg/dia sem essa coordenação prévia — e mesmo quando se justifica, recorto sempre a expectativa de que a cápsula será a peça que resolve tudo.

Há também aqui uma verdade incómoda que prefiro dizer em voz alta na consulta: o stress, a privação de sono, a cafeína em excesso e o consumo nocturno de álcool são, com frequência, factores com mais peso no bruxismo do que o magnésio sérico. Reordenar estes quatro itens dá, na maioria das vezes, melhores resultados do que aumentar a dose do suplemento — e é também por isso que, na minha prática, a discussão do magnésio cabe numa conversa mais ampla sobre estilo de vida e não num capítulo isolado.

Suplementação em doentes com patologias sistémicas: integração antes de tudo

A última peça — talvez a mais importante para quem me está a ler — é a integração. Quando sigo doentes com patologias sistémicas complexas, do diabético com periodontite ao transplantado sob imunossupressão, ao idoso polimedicado, ao doente com insuficiência renal crónica, o magnésio nunca é decidido em isolado. Entra como variável numa matriz que inclui função renal, medicação em curso, sinais clínicos orais e exames recentes.

Há três regras que sigo religiosamente e que partilho com colegas de outras especialidades:

1. Nunca ultrapassar 250 mg/dia de magnésio elemental proveniente de suplementos sem acordo explícito do médico assistente — sobretudo em insuficiência renal, onde o risco de hipermagnesemia é real, ou em regimes terapêuticos que alterem a excreção do mineral.

2. Rever integralmente a medicação em curso antes de iniciar a suplementação: alguns diuréticos, laxantes, antibióticos específicos e terapêuticas oncológicas podem interagir ou já fornecer magnésio como adjuvante.

3. Não tratar um sinal oral grave com suplemento: dor intensa, mobilidade dentária súbita, úlcera que não cicatriza em duas semanas, abcesso ou limitação de abertura de aparecimento recente exigem consulta presencial, não mais cápsulas.

Na prática, o que recomendo, em linhas gerais, ao adulto sem compromisso renal e sem medicação que interfira é começar pela dieta — vegetais de folha verde, leguminosas, frutos secos oleaginosos, sementes, cacau, cereais integrais —, confirmar com o médico assistente se há indicação para avaliar o magnésio sérico, e só depois ponderar um suplemento com sal bem tolerado. Bisglicinato e citrato são, pela minha experiência clínica, os que menos desconforto gastrointestinal produzem. Para quem toma o suplemento ao pequeno-almoço, recomendo avaliar se há melhor tolerância a meio da manhã e, quando há queixas gástricas, repartir a dose ao longo do dia em vez de a concentrar.

Em doentes oncológicos sob quimioterapia, em transplantados em fase de imunosupressão e em grávidas com patologia prévia, a suplementação de magnésio é decisão multidisciplinar. Nestes casos, limito-me a integrar a leitura na anamnese, a sinalizar o que está a ser tomado e a devolver a decisão terapêutica ao colega médico que acompanha o doente.

Recomendação de manutenção a longo prazo

Fecho como costumo fechar as conversas no consultório — com o que me parece mais útil ao doente quando o assunto já não é só suplementação. O magnésio pode e deve fazer parte de uma estratégia de fundo, mas não é, por si só, a resposta para gengivas inflamadas, dentes a desgastar ou articulações a doer. É um cofactor que faz sentido numa casa bem organizada; sozinho, não substitui os alicerces.

Se sair deste texto com três pontos internalizados, que sejam estes:

  • O rótulo diz duas coisas diferentes: o peso do sal e o magnésio elemental. Aprenda a ler as duas.
  • 250 mg por dia é o tecto para a parcela que vem de suplementos, definido pela EFSA. Mais do que isto, sem supervisão, não é prudente.
  • O suplemento acompanha o tratamento — não o substitui. Para a periodontite há destartarização, alisamento radicular e cirurgia quando necessário; para o bruxismo e a DTM há plano oclusal, fisioterapia e gestão de stress. O magnésio entra como cofactor, não como protagonista.

Marque na agenda, antes de iniciar ou de alterar qualquer suplemento, uma conversa com o seu médico dentista ou médico assistente. São os profissionais que melhor conhecem o seu caso clínico e que podem cruzar dieta, medicação e função renal antes de decidir a dose. E se entretanto lhe voltou a dúvida sobre o rótulo da caixa que tem em casa, traga-o na próxima consulta — é exactamente esse tipo de pergunta que me ajuda a perceber se estou a conseguir explicar-lhe o que precisa.

Perguntas frequentes

Como saber quanto magnésio estou realmente a tomar?
Deve procurar no rótulo a indicação de magnésio elemental. Caso o rótulo apenas indique o peso total do composto, é necessário multiplicar esse valor pela percentagem de magnésio elemental correspondente ao tipo de sal utilizado.
Qual é a diferença entre o Valor de Referência do Nutriente e o limite máximo de suplementação?
O Valor de Referência do Nutriente (375 mg) é um valor fixado para fins de rotulagem europeia, enquanto o limite máximo tolerável (250 mg) é o teto de segurança definido pela EFSA especificamente para a dose diária de magnésio proveniente de suplementos.
O magnésio ajuda a tratar o bruxismo?
O magnésio pode ajudar a regular o tónus neuromuscular, mas não é uma cura isolada. Deve ser integrado numa estratégia multimodal que inclui placa oclusal, gestão de stress e fisioterapia.
Quais os efeitos de tomar magnésio em excesso?
Doses superiores ao limite de segurança estão frequentemente associadas a efeitos gastrointestinais, como diarreia, cólicas e desconforto abdominal. Em doentes com compromisso renal, o excesso pode levar a riscos mais graves, como a hipermagnesemia.